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Dilemas, filósofos e prisioneiros
Desidério Murcho

O dilema dos prisioneiros é um problema clássico da teoria dos jogos, formulado pela primeira vez pelo matemático Albert W. Tucker, que tem interessantes repercussões na filosofia política e mesmo na ciência política. Não vou apresentar aqui o dilema, mas apenas o significado da solução que Axelrod descobriu nos anos 80. O dilema dos prisioneiros é um modelo preciso de um dilema que ocorre nas relações entre as pessoas: devo cooperar, ou será melhor adoptar uma estratégia egoísta e procurar a vantagem máxima para mim, à custa da outra pessoa?

É claro que sabemos que, do ponto de vista moral, devemos cooperar. Mas o que Axelrod descobriu é que também do ponto de vista egoísta, isto é, sem ter em consideração quaisquer considerações morais, terei mais a ganhar se cooperar. Esta cooperação, todavia, tem de obedecer a um certo padrão, a que se chama "pagar na mesma moeda": de cada vez que a outra pessoa não cooperar comigo, castigo-a, não cooperando com ela da próxima vez; mas estarei disposto, depois disso, a voltar a cooperar com ela.

Uma das razões que explica o atraso da filosofia no nosso país é o facto de a comunidade filosófica não adoptar uma estratégia de cooperação, procurando cada uma das pessoas que pertence à comunidade maximizar os seus interesses próprios, em detrimento do bem geral. O resultado, claro, é acabarmos todos numa situação pior do que se houvesse cooperação.

Sempre que se projecta algo nunca ocorre aos intervenientes considerar o que será melhor para a comunidade em geral, mas apenas o que será melhor para a sua carreira pessoal. É isto que explica o incrível panorama editorial português em matéria de filosofia: colecções de filosofia que abortam, revistas especializadas que vegetam, projectos de investigação que gastam milhares de contos aos contribuintes e em nada contribuem para a filosofia no nosso país.

Sempre que um membro da comunidade filosófica nacional tem de decidir o que vai fazer a seguir, nunca pensa em termos do que é o melhor para a comunidade no seu todo. É assim que temos o absurdo de poder ler em português duas das mais importantes obras de filosofia política do século XX (Liberalismo Político e Uma Teoria da Justiça, de Rawls), ao passo que não temos uma boa introdução à filosofia política em português. Publicam-se textos para os quais não há leitores — o que explica as colecções de filosofia que abortam —, mas que dão muito prestígio a quem os faz publicar.

Na Filosofia Aberta eu poderia ter optado por publicar outro tipo de livros: livros avançados de filosofia. Poderia ter publicado livros de Dummett, Kripke, Quine, Davidson ou de muitos outros grandes filósofos do século XX. Com essa estratégia eu teria granjeado prestígio. Mas a Filosofia Aberta já teria neste momento acabado, pois esses livros não têm público em Portugal.

A filosofia em Portugal está num momento prometedor. Mas é preciso que se trabalhe para o bem comum e não para fazer currículo. É preciso parar de perder tempo, dinheiro e energia com livros, revistas e conferências inúteis. Inúteis porque não têm público, apesar de darem muito prestígio a quem as organiza ou a quem os faz publicar.

É preciso começar a criar público para que, se os nossos esforços forem inteligentes e cooperativos, dentro de alguns anos venhamos a ter público para livros e revistas mais avançados, e para que tenhamos público para poder assistir com proveito a conferências de nível internacional. Para já, o que precisamos é de criar as condições para que venha a existir esse público. E para isso é preciso que cada pessoa da comunidade coopere e dê o seu melhor em prol do bem comum e não em prol do seu currículo.

E é aqui que Axelrod faz a sua entrada triunfal. Eu sei que não posso apelar ao sentido ético da maior parte das pessoas, para que promovam o bem comum quando lhes é tão fácil promoverem-se a si próprias. Mas Axelrod encerra uma lição importante: quem promove o bem comum, quem coopera, acaba por ganhar mais com isso do que se não cooperar. E isso é precisamente o que está neste momento a acontecer com a filosofia em Portugal. Estaríamos 10 anos mais avançados se as pessoas tivessem cooperado em prol do bem comum. Mas se estivéssemos 10 anos mais avançados, seriam precisamente essas pessoas que só pensam no seu currículo pessoal que hoje estariam numa situação profissional muito melhor do que estão. É irónico.

Assim, ainda que sejamos indiferentes ao apelo moral pelo bem comum, devemos cooperar e trabalhar pelo bem comum — porque nós próprios acabaremos por ganhar com isso.

Desidério Murcho


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