Tornando-se a Criança (Um poema no papiro de Ani, um dos "Livros dos Mortos" Egípcios ) Na espuma do mar, nos rodopios da imaginação, sou um peixe, um girino, um crocodilo. Sou um impulso, uma idéia, Um presságio de sonhos impossíveis. Resido entre o céu e a terra, entre o bem e o mal, entre a paciência e a explosão...e, no entanto, sou tão inocente como a auspiciosa aurora. Durmo com o dedo na boca, o cordão da vida enroscado na orelha. E, como uma criança no ventre de sua mãe, estou ENTRE vós mas não CONVOSCO. Não conheço início, pois não tenho fim. Sempre aqui estive, uma criança entre o silêncio das coisas, pronto a despertar a qualquer momento. Eu sou a possibilidade. Ah, o que sei foi-me dado para dizer. EXISTE mais e, o mundo que existe, são palavras que existem na mente do Céu. Há os que, de entre vós, acreditais nas limitações da imaginação, acreditais nas limitações do mundo. Não as podeis mudar! Tendes o vosso próprio trabalho a fazer... E vós... nunca alcançareis o fim do vosso próprio início! A tristeza, a criação, o seu júbilo. Dança por um momento. Curva-te e colhe-me uma canção, rodopia e canta. Esquece a mágoa de sermos carne e osso. Volta comigo às águas profundas, à canção no ventre de minha mãe. Somos deuses, dançando no turbilhão da escuridão E no Ventre, antes do Mundo se iniciar, conhecíamo-nos uns aos outros. Concordámos em partilhar companhia. Em conhecer o desgosto, em troca do júbilo. Conhecer a morte, em troca da vida. Somos as pardas sementes da possibilidade, insinuando-se.... E um a um, entrámos sózinhos. Caminhámos com as nossas própias pernas, passámos em ruas bem iluminadas, e, no entanto, não nos reconhecemos uns aos outros! ...Embora sejamos deuses! Deuses vivem mesmo na escuridão, no mundo acima de vós, entre as fendas da escuridão e na mão aberta de um estranho... Sou a criança....a semente em todas as coisas. O ritmo, a flor, a velha história que se alonga. Sou o ar....Sou o amor oculto na toga de uma tímida donzela. Sou o nome das coisas... Sou um homem na terra, e um deus no céu. E, enquanto atravesso os desertos sob delicada forma, Enquanto envelheço, enfraqueço e morro, Vivo sempre como Criança, dentro do Corpo da Verdade. Um ovo azul, que gira na tempestade, mas nunca quebra Durmo em paz, a minha alma entranhada em Deus Vem, conhece-me, pois eu sou a criança dentro de ti!